Aquarela do Brasil – 2024

Versão longa.

Versão curta

Eu tive a oportunidade de usufruir de une bourse mobilité por três meses para o Brasil e pude realizar a performance “Aquarela do Brasil”em Santa Teresa, Rio de Janeiro em julho de 2024. Neste caso em especial a paisagem para compor a performance fez toda a diferença. O cenário era composto de um muro, uma casa com a alvenaria aparente, uma árvore tropical que encobre uma favela próxima ao local, mas pode-se ver outras árvores e construções ao fundo. Na sua composição foram utilizadas 159 folhas de papel ofício com um texto que introduz a obra e uma frase afirmando, Eu sou…sendo completada com cada uma das cento e trinta e seis cores.

A performance “Aquarela do Brasil” surge após as minhas leituras do livro “Nem preto nem branco, muito pelo contrário: cor e raça na sociabilidade brasileira”, da antropóloga Lilia Moritz Schwarcz. As reações eram diversas, com constatações reais de um passado nem tão passado assim. A negação pública do racismo, enquanto o mesmo é praticado na intimidade das relações quotidianas, foi uma questão muito evidente para uma mulher negra como eu, que vim do bairro de Guadalupe, no subúrbio carioca. A performance “Aquarela do Brasil” remete ao censo demográfico realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ( IBGE ) em 1976 e ao próprio povo brasileiro. Na pesquisa do IBGE do ano 1976 os agentes recenseadores foram instruídos a visitar os domicílios e considerar a cor declarada por cada cidadão abordado. Tal procedimento desencadeou um impasse, com declarações inusitadas e o surgimento de auto denominações que geraram cento e trinta e seis cores, que negligenciavam muitas vezes suas origens. Dessa forma, a sociedade, ou melhor o cidadão foi se embranquecendo pouco a pouco, com nomes de cores que exigem interpretações particularizadas. Aos olhos do cidadão era mais fácil se auto denominar da cor lilás do que assumir seus antepassados escravizados oriundos da África.